quarta-feira, abril 21, 2010

Saudade

Quem - me respondam - inventou essa palavra?
Me digam, pois eu mato!
Se bem que, pensando bem, quem inventou a palavra "saudade" só fez nomear um sentimento que nos confunde, e que é meio complicado, meio confuso.
Afinal, sentir saudades é bom ou é ruim? Depende do momento? Do tipo de saudade?
Sim, pois temos vários tipos de saudade. (eu pelo menos tenho)
Saudade de minha infância.
Saudade de comer aquela comida que não como há tempos.
Saudade de tomar banho de chuva.
Saudade de roupas que não mais servirão.
Saudade de conversas que já não fazem tanto sentido assim.
Saudade de quem partiu antes da hora.
Saudade de um lugar que visitou.

Sim, eu tenho todos esses tipos de saudade.
E ainda mais, saudade nem sempre vem sozinha. Às vezes vem precedida por uma música - que te faz ter saudade de alguém ou de algum momento - às vezes ele precede uma alegria enorme, ou uma tristeza infinita.
Acho que posso dizer que "saudade" vive numa corda bambam, ora trás felicidade, nostalgia e sentimentos gostosos, ora trás melancolia, tristeza e um vazio enorme!
Mas posso dizer que sentir saudade quer dizer que você viveu. Que você amou. Que você ganhou. Que você perdeu. Nossa, saudade que dizer tanta coisa, parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes!
Acho que é isso. Eu sinto saudades.. nossa como sinto!

Nada melhor que ela - a Lispector para nos trazer um texto inspirado.. que fala.. ora porque não, de saudade!

Saudades

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...